Corpórea medular

Degolaram-me de uma vez. Não tive tempo de respirar o resto do meu silêncio. Roubaram os vestígios dos meus sofrimentos e distorceram minhas desilusões. Quem será que reaparece da escuridão para furtar as dores alheias? O meu desentendimento é brando. Mas aquele laço de escuro que envolveu meu dia. Jamais esquecerei. Talvez a transformação seja imensa e é tão invisível quanto a alma. Talvez as minhas certezas fincadas na parede ondulada transmitem o eco escondido de uma escada descrente.
Três horas antes
A luz ofusca mostrava um cenário na trivialidade de cada olhar. Estava ela refletindo sobre os últimos acontecimentos da vida. Esse vazio que aos poucos é preenchido de vozes, de sentires, de atos, de fatos, de cheiros, de melodias e, lentamente, era esvaziado todas as noites quando o sol se deita, verticalmente, na nuvem de estrelas que serve de cortina para que ele possa dormir na constelação de galáxias.
Segurou, bruscamente, um pedaço de sua alma que se perdia no espelho e resolveu perfurar sua carne para alojar aquele tênue fragmento rebelde dentro de seu osso. Não admitiria viver uma vida que nunca fora sua. Por isso, tratou de renunciar os retalhos de sua existência. Raptou o que sobrara de sua antiga luz e resgatou para dentro de si. Eram pequenos pontos afiados e sedentos para retomar sua estrada.
Arquitetou-se em frente do espelho, onde vislumbrou lembranças embaçadas e sem nexos. Nada daquilo tinha mais sentido. Nesse momento, pensou sozinha e sentiu mais aliviada: “Era hora de dizer adeus. E cada ‘ser respirante’ esgotar o resto do suas vidas.” Estava aborrecida com alguns trilhos finais. Mas sabia que seu começo seria um lapso de humanização. Precisava sofrer e sentir a verdade rasgar a medula óssea para conseguir se entregar no delírio vívido da verdade.
Olhou em direção ao tempo. E sentiu que estava sendo atraída por novos caminhos. A verdade sorrateira transmitiu seu semblante na lua minguante. Estava retornando vagarosamente. Perdeu um fragmento de sua família. Mas na verdade nunca o tivera. Abandono. Não. Liberdade. Talvez. No encontro do seu olhar com a lua, reconheceu a sua alma por completo que aos poucos se despia de tantos escombros…
Agora

Subiu as escadas. Tratou de continuar a sonhar a sua realidade serena que estava nua ao seu lado e a permitia viver humanamente.
Encontro-me no universo dentro de mim. Aqui aloja todos os planetas inexplorados pela compreensão. Mas completamente sentidos pelo prazer de ser humana.
Costurou o que restou de seus olhos e viu por completo seu corpo no reflexo da escuridão.

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