Onde estiveste de noite

“As histórias não têm defeito”

Alberto Dines 

“O desconhecido vicia”

Fuazi Arap 

“Sentado na poltrona, com a boca cheia de dentes esperando a morte”

Raul Seixas 

“O que vou anunciar é tão novo que receio ter todos os homens por inimigos, a tal ponto se enraízam no mundo os preconceitos e as doutrinas,
uma vez aceitas”

William Harvey

       A noite era uma possibilidade excepcional. Em plena noite fechada de um verão escaldante um galo soltou seu grito fora de hora e uma só vez para alertar o início da subida pela montanha. A multidão embaixo aguardava em silêncio.

        Ele-ela já estava presente no alto da montanha, e ela estava personalizada no ele e o ele estava personalizado no ela. A mistura andrógina criava um ser tão terrivelmente belo, tão horrorosamente estupefaciente que os participantes não poderiam olhá-lo de uma só vez: assim como uma pessoa vai pouco a pouco se habituando ao escuro e aos poucos enxergando. Aos poucos enxergavam o Ela-ele e quando o Ele-ela lhes aparecia com uma claridade que emanava dela-dele, eles paralisados pelo que é Belo diriam: “Ah, Ah”. Era uma exclamação que era permitida no silêncio da noite. Olhavam a assustadora beleza e seu perigo. Mas eles haviam vindo exatamente para sofrer o perigo.

     Os pântanos se exalavam. Uma estrela de enorme densidade guiava-os. Eles eram o avesso do Bem. Subiam a montanha misturando homens, mulheres, gnomos e anões – como deuses extintos. O sino de ouro dobrava pelos suicidas. Fora da estrela graúda, nenhuma estrela. E não havia mar. O que havia no alto da montanha era escuridão. Soprava um vento noroeste. Ele-ela era um farol? A adoração dos malditos ia se processar.

       Os homens coleavam no chão como grossos e moles vermes: subiam. Arriscavam tudo, já que fatalmente um dia iam morrer, talvez dentro de dois meses, talvez sete anos – fora isto que Ele-ela pensava dentro deles.

       Olha o gato. Olha o que o gato viu. Olha o que o gato pensou. Olha o que era. Enfim, enfim, não havia símbolo, a “coisa” era! a coisa orgíaca. Os que subiam estavam à beira da verdade. Nabucodonosor. Eles pareciam 20 nabucodonosores. E na noite se desquitavam. Eles estão nos esperando. Era uma ausência – a viagem fora do tempo.

       Um cão dava gargalhadas no escuro. “Tenho medo”, disse a criança. “Medo de quê?”, perguntava a mãe. “De meu cão”. “Mas você não tem cão”. “Tenho sim.” Mas depois a criancinha também gargalhou chorando, misturando lágrimas de riso e de espanto.

       Afinal chegaram, os malditos. E olharam aquela sempiterna Viúva, a grande Solitária que fascinava todos, e os homens e mulheres não podia resistir e queriam aproximar-se dela para amá-la morrendo mas ela com um gesto mantinha todos à distância. Eles queriam amá-la de um amor estranho que vibra em morte. Não se incomodavam de amá-la morrendo. O manto de Ela-ele era de sofrida cor roxa. Mas as mercenárias do sexo em festim procuravam imitá-la em vão.

       Que horas seria? ninguém podia viver no tempo, o tempo era indireto e por sua própria natureza sempre inalcançável. Eles já estavam com as articulações inchadas, os estragos roncanvam nos estômagos cheios de terra, os lábios túmidos e no entanto rachados – eles subiam a encosta. As trevas eram de um som baixo e escuro como a nota mais escura de um violoncelo. Chegaram. O Mal-Aventurado, o Ele-ela, diante da adoração de reis e vassalos, refulgia como uma iluminada águia gigantesca. O silêncio pululava de respirações ofegantes. A visão era de bocas entreabertas pela sensualidade que quase os paralisava de tão grossa. Eles se sentiam salvos do Grande Tédio.

       O morro era de sucata. Quando a Ela-ele parava um instante, homens e mulheres, entregues a eles próprios por um instante, diziam-se assustados: eu não sei pensar. Mas o Ele-ela pensava dentro deles.

       Um arauto mudo de clarineta anunciava a notícia. Que notícia? a da bestialidade? Talvez no entanto fosse o seguinte: a partir do arauto cada um deles começou a “se sentir”, a sentir a si próprio. E não havia repressão: livres!

       Aí eles começaram a balbuciar mas para dentro porque a Ela-ele era cáustica quanto a não disturbarem uns aos outros na sua lenta metamorfose. “Sou Jesus! sou judeu!”, gritava em silêncio o judeu pobre. Os anais da astronomia nunca registraram nada como este espetacular cometa, recentemente descoberto – sua cauda vaporosa se arrastará por milhões de quilômetros no espaço. Sem falar no tempo.

       Um anão corcunda dava pulinhos como um sapo, de uma encruzilhada a outra – o lugar era de encruzilhadas. De repente as estrelas apareceram e eram brilhantes e diamantes no céu escuro. E o corcunda-anão dava pulos, os mais altos que conseguia para alcançar os brilhantes que sua cobiça despertava. Cristais! Cristais! gritou ele em pensamentos que eram saltitantes como os pulos.

       A latência pulsava leve, ritmada, ininterrupta. Todos eram tudo em latência. “Não há crime que não tenhamos cometido em pensamento”: Goethe. Uma nova e não autêntica história brasileira era escrita no estrangeiro. Além disso, os pesquisadores nacionais se queixavam de falta de recursos para o trabalho.

       A montanha era de origem vulcânica. E de repente, o mar: a revolta rebentação do Atlântico lhes enchia os ouvidos. E o cheiro salgado do mar fecundava-os e triplificava-os em monstrinhos.

       O corpo humano pode voar? A levitação. Santa Tereza D´Ávila: “Parecia que uma grande força me erguia no ar. Isso me provocava um grande medo.” O anão levitava por segundos mas gostava e não tinha medo.

 – Como é que você se chama, disse mudo o rapaz, para eu chamar você a vida inteira. Eu gritarei seu nome.

– Eu não tenho nome lá embaixo. Aqui tenho o nome de Xantipa.

– Ah, quero gritar Xantipa! Xantipa! Olhe, eu estou gritando para dentro. E qual é o seu nome durante o dia?

– Acho que é… é… parece que é Maria Luísa.

       E estremeceu como um cavalo se eriça. Caiu exangue no chão. Ninguém assassinava ninguém porque já eram assassinados. Ninguém queria morrer e não morria mesmo.

      Enquanto isso – delicada, delicada – o Ele-ela usava um timbre. A cor do timbre. Porque eu quero viver em abundância e trairia o meu melhor amigo em troca de mais vida do que se pode ter. Essa procura, essa ambição. Eu desprezava os preceitos dos sábios que aconselham a moderação e a pobreza de alma – a simplificação da alma, segundo minha própria experiência, era a santa inocência. Mas eu lutava contra a tentação.

      Sim. Sim: cair até a abjeção. Eis a ambição deles. O som era o arauto do silêncio. Porque nenhum poderia se deixar possuir por Aquele-aquela-sem-nome.

      Eles queriam fruir o proibido. Queriam elogiar a vida e não queriam a dor que é necessária para se viver, para se sentir e para amar. Eles queriam sentir a imortalidade terrífica. Pois o proibido é sempre o melhor. Eles ao mesmo tempo não se incomodavam de talvez cair no enorme buraco da morte. E a vida só lhes era preciosa quando gritavam e gemiam. Sentir a força do ódio era o que eles melhor queriam. Eu me chamo povo, pensavam.

– Que é que eu faço para ser herói? Porque nos templos só entram heróis.

      E o silêncio de repente o seu grito uivado que não se sabia se de amor ou dor mortal, o herói cheirando mirra, incenso e benjoim.

      Ele-ela cobria a sua nudez com um manto lindo mas como uma mortalha, mortalha púrpura, agora vermelho-catedral. Em noites sem lua Ela-ele virava coruja. Comerás teu irmão, disse ela no pensamento dos outros, e na hora selvagem haverá um eclipse do sol.

      Para não se traírem eles ignoravam que hoje era ontem e haveria amanhã. Soprava no ar uma transparência como igual homem nenhum havia respirado antes. Mas eles espargiam pimenta em pó nos próprios órgãos genitais e se contorciam de ardor. E de repente o ódio. Eles não matavam uns aos outros mas sentiam tão implacável ódio que era como um dardo lançado num corpo. E se rejubilavam danados pelo que sentiam. O ódio era um vómito que os livrava do vómito maior, o vómito da alma.

       Ele-ela com as sete notas musicais conseguia o uivo. Assim como com as mesmas sete notas podia criar música sacra. Ouviram eles dentro deles o dó-ré-mi-fá-sol-lá-si, o “si” macio e agudíssimo. Eles eram independentes e soberanos, apesar de guiados pelo Ele-ela. Rugindo a morte nos porões escuros. Fogo, grito, cor, vício, cruz. Estou vigilante no mundo? de noite vivo e de dia durmo, esquivo. Eu, com faro de cão, orgiático.

       Quanto a eles, cumpriam rituais que os fiéis executam sem entender-lhes os mistérios. O cerimonial. Com um gesto leve Ela-ele tocou numa criança fulminando-a e todos disseram: amém. A mãe deu um uivo de lobo: ela toda morta, ela, também.

       Mas era para ter supersensações que para ali se subia. E era sensação tão secreta e tão profunda que o júbilo faiscava no ar. Eles queriam a força superior que reina no mundo através dos séculos. Tinham medo? Tinham. Nada substituía a riqueza do silencioso pavor. Ter medo era a amaldiçoada glória da escuridão, silente como uma lua.

       Aos poucos se habituavam ao escuro e a Lua, antes escondida, toda redonda e pálida, tinha lhes abrandado a subida. Eram trevas quando um por um subira “a montanha”, como chamavam o planalto um pouco mais elevado. Tinham se apoiado no chão para não cair, pisando em árvores secas e ásperas, pisando em cactus espinhoso. Era um medo irresistivelmente atraente, eles prefeririam morrer que abandoná-lo. O Ele-ela era-lhes como a Amante. Mas se algum ousasse por ambição tocá-la era congelado na posição em que estivesse.

      Ele-ela contou-lhes dentro de seus cérebros – e todos ouviram-na dentro de si – o que acontecia a uma pessoa quando esta não atendia ao chamado da noite: acontecia que na cegueira da luz do dia a pessoa vivia na carne aberta e nos olhos ofuscados pelo pecado da luz – a pessoa vivia sem anestesia o horror de se estar vivo. Não há nada a temer, quando não se tem medo. Era a véspera do apocalipse. Quem era o rei da Terra? Se você abusa do poder que você conquistou, os mestres o castigarão. Cheios do terror de uma feroz alegria eles se abaixavam e às gargalhadas comiam ervas daninhas do chão e as gargalhadas reboavam de escuridões a escuridões com seus ecos. Um cheiro sufocante de rosas enchia de peso o ar, rosas malditas na sua força de natureza doida, a mesma natureza que inventava as cobras e os ratos e pérolas e crianças – a natureza doida que ora era noite em trevas, ora o dia de luz. Esta carne que se move apenas porque tem espírito.

      Das bocas escorria saliva grossa, amarga e untuosa, e eles se urinavam sem sentir. As mulheres que haviam parido recentemente apertavam com violência os próprios seios e dos bicos um grosso leite preto esguichava. Uma mulher cuspiu com força na cara de um homem e o cuspe áspero escorreu-lhe da face até a boca – avidamente ele lambeu os lábios.

      Estavam todos soltos. A alegria também era frenética. Eles eram o harém do Ele-ela. Tinham caído finalmente no impossível. O misticismo era a mais alta forma de superstição.

      O milionário gritava: quero o poder! poder! quero que até os objetos obedeçam as minhas ordens! E direi: move-te, objeto! e ele por si só se moverá.

      A mulher velha e desgrenhada disse para o milionário: quer ver como você não é milionário? Pois vou te dizer: você não é dono do próximo segundo de vida, você pode morrer sem saber. A morte te humilhará. O milionário: Eu quero a verdade, a verdade pura!

      A jornalista fazendo uma reportagem magnifica da vida crua. Vou ganhar fama internacional como a autora de “O Exorcista” que não li para não me influenciar. Estou vendo direto a vida crua, eu a estou vivendo.

      Eu sou solitário, se disse o masturbador.

      Estou em espera, espera, nada jamais me aconteceu, já desisti de esperar. Eles bebiam o amargo licor das ervas ásperas.

– Eu sou um profeta! eu vejo o além! se gritava um rapaz.

      Padre Joaquim Jesus Jacinto – tudo com jota porque a mãe dele gostava da letra jota.

      Era dia trinta e um de dezembro de 1973. O horário astronômico seria aferido pelos relógios atômicos, cujo atraso é de apenas um segundo a cada três mil e trezentos anos.

      A outra deu para espirrar, um espirro atrás do outro, sem parar. Mas ela gostava. A outra se chamava J.B.

– Minha vida é um verdadeiro romance! gritava a escritora falida.

      O êxtase era reservado para o Ele-ela. Que de repente sofreu a exaltação do corpo, longamente. Ela-ele disse: parem! Porque ela se endemoniava por sentir o gozo do Mal. Eles todos através dela gozavam: era a celebração da Grande Lei. Os eunucos faziam uma coisa que era proibido olhar. Os outros, através de Ela-ele, recebiam frementes as ondas do orgasmo – mas só ondas porque não tinham força de, sem se destruírem, receber tudo. As mulheres pintavam a boca de roxo como se fosse fruta esmagada pelso afiados dentes.

      O Ela-ele contou-lhes o que acontecia quando não se iniciava na profetização da noite. Estado de choque. Por exemplo: a moça era ruiva e como se não bastasse era vermelha por dentro e além disso daltônica. Tanto que no seu pequeno apartamento havia uma cruz verde sobre fundo vermelho: ela confundia as duas cores. Como é que começara o seu terror? Ouvindo um disco ou o silêncio reinante ou passos no andar de cima – e ei-la aterrorizada. Com medo do espelho que a refletia. Defronte tinha um armário e a impressão era que as roupas se mexiam dentro dele. Aos poucos ia restringindo o apartamento. Tinha medo até de sair da cama. A impressão de que iam agarrar o seu pé embaixo da cama. Era magríssima. O seu nome era Psiu, nome vermelho. Tinha medo de acender a luz no escuro e encontrar a fria lagartixa que morava com ela. Sentia com aflição os dedinhos gelados e brancos da lagartixa. Procurava avidamente no jornal as páginas policiais, notícias do que estava acontecendo. Sempre aconteciam coisas apavorantes para as pessoas, como ela, que viviam só e eram assaltadas de noite. Tinha na parede um quadro que era o de um homem que a fixava bem nos olhos, vigiando-a. Essa figura ela imaginava que a seguia por todos os cantos da casa. Tinha medo pânico de ratos. Preferia morrer a entrar em contato com eles. No entanto ouvia os guinchos deles. Chegava a sentir-lhes as mordidas nos pés. Acordava sempre sobressaltada, suando frio. Ela era um bicho acuado. Normalmente dialogava consigo mesma. Dava prós e contras e sempre quem perdia era ela. Sua vida era uma constante substração de si mesma. Tudo isso porque não atendeu ao chamado da sirene.

      O Ele-ela só deixava mostrar o rosto de andrógina. E dele se irradiava tal cego esplendor de doido que os outros fruíam a própria loucura. Ela era o vaticínio e a dissolução e já nascera tatuada. O ar todo cheirava agora a fatal jasmim e era tão forte que alguns vomitavam as próprias entranhas. A Lua estava plena no céu. Quinze mil adolescentes esperavam que espécie de homem e mulher eles iriam ser.

      Então Ela-ele disse:

– Comerei o teu irmão e haverá um eclipse total e o fim do mundo.

      De vez em quando ouvia-se um longo relincho e não se via cavalo nenhum. Sabia-se apenas que com sete notas musicais fazem-se todas as músicas que existem e que existiam e que existirão. Da ela-ele emanava-se forte cheiro de jasmim esmagado porque era noite de Lua cheia. O catimbó ou a feitiçaria. Max Ernst quando criança foi confundido com o Menino Jesus numa procissão. Depois provocava escândalos artísticos. Tinha uma paixão ilimitada pelos homens e uma imensa e poética liberdade. Mas por que estou falando nisso? Não sei. “Não sei” é uma resposta ótima.

      O que fazia Thomas Edison, tão inventor e livre, no meio deles que eram comandados por Ele-ela?

      Gregotins, pensou o estudante perfeito, era a palavra mais difícil da língua.

      Escutai! os anjos anunciadores cantam!

      O judeu pobre gritava mudo e ninguém o ouviu, o mundo inteiro não o ouvia. Ele disse assim: tenho sede, suor e lágrimas! e para saciar a minha sede bebo meu suor e minhas próprias lágrimas salgadas. Eu não como porco! sigo a Torah! mas dai-me alívio, Jeová, que se parece demais comigo!

      Jubileu de Almeida ouvia o rádio de pilha, sempre. “O mingau mais gostoso é feito com Cremogema”. E depois anunciava, de Strauss, uma valsa que por incrível que parecesse chamava-se “O pensador livre”. É verdade, existe mesmo, eu ouvi. Jubileu era dono do “Ao Bandolim de Ouro”, loja de instrumentos musicais quase falida, e era tarado por valsas de Strauss. Era viúvo, ele, quer dizer, Jubileu. Seu rival era “O Clarim”, concorrente na rua Gomes Freire ou Frei Caneca. Jubileu era também afiador de pianos.

      Todos ali estavam prestes a se apaixonar. Sexo. Puro sexo. Eles se freavam. A Rumânia era um país perigoso: ciganos.

      Faltava petróleo no mundo. E, sem petróleo, faltava comida. Carne, sobretudo. E sem carne eles se tornavam terrivelmente carnívoros.

      “Aqui, Senhor, encomendo a minha alma”, dissera Cristóvão Colombo ao morrer, vestido com o hábito franciscano. Ele não comia carne. Se santificava, Cristóvão Colombo, o descobridor das ondas, o que descobriu S. Francisco de Assis. Hélas! ele morrera. Onde está agora? onde? pelo amor de Deus, responde!

      De repente e bem de leve – fiat lux.

      Houve uma debandada assustadiça como de pardais.

      Tudo tão rápido que mais parecia terem se esvanecido.

      Na mesma hora estavam ora deitados na cama a dormir, ora já despertos. O que existira era silêncio. Eles não sabiam de nada. Os anjos da guarda – que tinham tirado um descanso já que todos estavam na cama sossegados – despertavam frescos, bocejando ainda, mas já protegendo os seus pupilos.

      Madrugada: o ovo vinha rodopiando bem lento do horizonte para o espaço. Era de manhã: uma moça loura, casada com rapaz rico, dá à luz um bebê preto. Filho do demônio da noite? Não se sabe. Apuros, vergonha.

      Jubileu de Almeida acordou como pão dormido: chocho. Desde pequeno fora murcho assim. Ligou o rádio e ouviu: “Sapataria Morena onde é proibido vender caro”. Iria lá, estava precisando de sapatos. Jubileu era albino, negro aço com cílios amarelos quase brancos. Ele estalou um ovo na frigideira. E pensou: se eu pudesse algum dia ouvir “O pensador livre”, de Strauss, eu seria recompensado na minha solidão. Só ouvira essa valsa uma única vez, não se lembrava quando.

      O poderoso queria no seu breakfast comer caviar dinamarquês às colheradas, estalando com os dentes agudos as bolinhas. Ele era do Rotary Club e da Maçonaria e do Diners Club. Tinha o requinte de não comer caviar russo: era um modo de derrotar a poderosa Rússia.

      O judeu pobre acorda e bebe água da bica sofregamente. Era a única água que tinha nos fundos da pensão baratíssima onde morava: uma vez veio uma barata nadando no feijão ralo. As prostitutas que lá moravam nem reclamavam.

      O estudante perfeito, que não desconfiava que era um chato, pensou: qual era a palavra mais difícil que existia? Qual era? Uma que significava adornos, enfeites, atavios? Ah, sim, gregotins. Decorou a palavra para escrevê-la na próxima prova.

      Quando começou a raiar o dia todos estavam na cama sem parar de bocejar. Quando acordavam, um era sapateiro, um estava preso por estupro, uma era dona-de-casa, dando ordens à cozinheira, que nunca chegava atrasada, outro era banqueiro, outro era secretário, etc. Acordavam, pois, um pouco cansados, satisfeitos pela noite tão profunda de sono. O sábado tinha passado e hoje era domingo. E muitos foram à missa celebrada por padre Jacinto que era o padre da moda: mas nenhum se confessou, já que não tinham nada a confessar.

      A escritora falida abriu o seu diário encadernado de couro vermelho e começou a anotar assim: “7 de julho de 1974. Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu! Nesta bela manhã de um sol de domingo, depois de ter dormido muito mal, eu, apesar de tudo, aprecio as belezas maravilhosas da Natureza-mãe. Não vou à praia porque sou gorda demais e esta é uma infelicidade para quem aprecia tanto as ondas verdezitas do Mar! Eu me revolto! Mas não consigo fazer regime: morro de fome. Gosto de viver perigosamente. Tua língua viperina será cortada pela tesoura da complacência”.

      De manhã: agnus dei. Bezerro de ouro? Urubu.

      O judeu pobre: livrai-me do orgulho de ser judeu!

      A jornalista de manhã bem cedo telefona para sua amiga:

– Claudia, me desculpe telefonar num domingo a esta hora! Mas acordei com uma inspiração fabulosa: vou escrever um livro sobre Magia Negra! Não, não li o tal do Exorcista, porque me disseram que é má literatura e não quero que pensem que estou indo na onda dele. Você já pensou bem? o ser humano sempre tentou se comunicar com o sobrenatural desde o antigo Egito com o segredo das Pirâmides, passando pela Grécia com seus deuses, passando por Shakespeare no Hamlet. Pois eu também vou entrar nessa. E, por Deus, vou ganhar essa parada!

      Havia em muitas casas do Rio o cheiro de café. Era domingo. E o rapaz ainda na cama, cheio de torpor, ainda mal-acordado, se disse: mais um domingo de tédio. Com o que havia sonhado, mesmo? Sei lá, respondeu-se, se sonhei, sonhei com mulher.

      Enfim, o ar clareia. E o dia de sempre começa. O dia bruto. A luz era maléfica: instaurava-se o mal-assombrado dia diário. Uma religião se fazia necessária: uma religião que não tivesse medo do amanhã. Eu quero ser invejado. Eu quero o estupro, o roubo, o infanticídio, e o desafio meu é forte. Queria ouro e fama, desprezava até o sexo: amava depressa e não sabia o que era amor. Quero o ouro mau. Profanação. Vou ao meu extremo. Depois da festa – que festa? noturna? – depois da festa, desolação.

      Havia o observador que escreveu assim no caderno de notas: “O progresso e todos os fenômenos que o cercam parece participar intimamente dessa lei de aceleração geral, cósmica e centrífuga que arrasta a civilização ao “progresso máximo”, a fim de que em seguida venha a queda. Uma queda ininterrupta ou uma queda rapidamente contida? Aí está o problema: não podemos saber se esta sociedade se destruirá completamente ou se conhecerá apenas uma interrupção brusca e depois a retomada de sua marcha”. E depois: “O Sol diminuiria seus efeitos sobre a Terra e provocaria o início de um novo período glacial que poderia durar no mínimo dez mil anos”. Dez mil anos era muito e assustava. Eis o que acontece quando alguém escolhe, por medo da noite escura, viver a superficial luz do dia. É que o sobrenatural, divino ou demoníaco, é uma tentação desde o Egito, passando pela Idade Média até os romances baratos de mistério.

      O açougueiro, que nesse dia só trabalhava das oito às onze horas, abriu o açougue: e parou embriagado de prazer ao cheiro de carnes e carnes cruas, cruas e sangrentas. Era o único que de dia continuava a noite.

      Padre Jacinto estava na moda porque ninguém como ele erguia tão limpidamente a taça e bebia com sagrada unção e pureza, salvando a todos, o sangue de Jesus que era o Bem. Com delicadeza as mãos pálidas num gesto de oferenda.

      O padeiro como sempre acordou às quatro horas e começou a fazer a massa de pão. De noite amassar ao Diabo?

Um anjo pintado por Fra Angélico, século XV, voejava pelos ares: era a clarineta anunciadora da manhã. Os postes de luz elétrica não tinham ainda sido apagados e lustravam-se empalidecidos. Postes. A velocidade come os postes quando se está correndo de carro.

      O masturbador de manhã: meu único amigo fiel é meu cão. Ele não confiava em ninguém, sobretudo em mulher.

      A que bocejara a noite toda e dissera: “t’isconjuro, mãe de santo!” começou a coçar e a bocejar. Diabo, disse ela.

      O poderoso – que cuidava de orquídeas, catléias, lélias e oncídios – apertou impaciente a campainha para chamar o mordomo que lhe trouxesse o já atrasado breakfast. O mordomo adivinhara-lhe os pensamentos e sabia quando lhe trazer os galgos dinamarqueses para serem rapidamente acariciados.

      Aquela que de noite gritava “estou em espera, em espera”, de manhã, toda desgrenhada disse para o leite na leiteira que estava no fogo:

– Eu te pego, seu porcaria! Quer ver se tu te mancas e ferves na minha cara, minha vida é esperar. É sabido que se eu desviar um instante o olhar do leite, esse desgraçado vai aproveitar para ferver e entornar. Como a morte que vem quando não se espera.

      esperou, esperou e o leite não fervia. Então, desligou o gás.

      No céu o mais leve arco-íris: era o anúncio. A manhã como uma ovelha branca. Pomba branca era a profecia. Manjedoura. Segredo. A manhã preestabelecida. Ave-Maria, gratia plena, dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum frutus ventri tui Jesus. Sancta Maria Mater Dei ora pro nobis pecatoribus. Nunca et ora nostrae morte Amem.

      Padre Jacinto ergueu com as duas mãos a taça de cristal que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta, vinho bom. E uma flor nasceu. Um flor leve, rósea, com perfume de Deus. Ele-ela há muito sumira do ar. A manhã estava límpida como coisa recém-lavada.

AMÉM

      Os fiéis distraídos fizeram o sinal da Cruz.

AMÉM

DEUS

FIM

Epílogo:

      Tudo o que escrevi é verdade e existe. Existe uma mente universal que me guiou. Onde estivestes de noite? Ninguém sabe. Não tentes responder – pelo amor de Deus. Não quero saber da resposta. Adeus. A-Deus.

(in “Onde estivestes de noite” – 7ª Ed. – Ed. Francisco Alves – Rio de Janeiro – 1994)

Fluídos

     Ouve-se uma voz: “Até a realidade pode ser bastante irreal.” ( A mulher do viajante no tempo-Audrey Niffenegger-363).

(…)

     Estão plenos, desconexos, largados e inacabados. Deslizavam numa superfície sólida e frágil, estavam prestes a derreter, transformando em líquido. Esse licor é a parte mais purificadora e verossímil que persistia em existir. Ali, era nascente de várias coisas, que posteriormente eram intituladas e identificados, muitas vezes indefinidas por si mesma. Nesse caso, eram notificados ao recinto dos enigmas, desvendados individualmente em seu tempo.

     A integração estava acontecendo, havia liberdade para escolher um caminho, mas na maioria das circunstâncias eram influenciado pelo meio, desde do físico, metafísico, sinestético conduzidos pelas matizes do empirismo, pragmático, ilógico, e.t.c (Escondidos Totalmente e Calados). Esses pólos estavam aliando-se, descontrole, a impulsão é a própria respiração, o ar é a linguagem que constituía um pedaço de sua face.

(…)

    O alguém disse para o ninguém:

” – E cada dia teremos menos. E depois nenhum.

-Você preferiria, então, não ter nada?

– Não. É aqui que  eu venho sempre. Desde que meu tempo começou. E quanto eu for embora daqui, este será o ponto intermediário, para o qual tudo corria antes, e do qual tudo correrá. Mas agora, meu amor, estamos aqui, estamos agora, aqueles outros tempos correm em outro lugar.”

Possessão A.S Byatt