A educação pela pedra

João  Cabral de Melo Neto

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la. 

*
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

Anúncios

O destino

    Na estrada da vida caminhando sozinha, os seus passos são pesados sob o chão árido. Dentro do coração guardam suas lágrimas nunca despejadas, naqueles olhos entristecido e envelhecidos pelo tempo. Como tudo havia dissipado em frente de seus olhos tão subitamente, que nada poderia ter feito para reverter os fatos. Resigna-se e continua andar cabisbaixo seguindo o resto do seu destino traçado em cada instante que transpassa de sua vida. A única vida que é feita das horas.

    Todo aquele tempo há espera uma oportunidade de reconciliação, todas as palavras redigidas e tácitas pelo silêncio de um coração partido em vários tênues pedaços, que são caídos no chão brutal da realidade. Os olhos  são abertos e deparar com a realidade em sua frente face á face, descobre que isso era viver. A vida tornou-se sinônimo de sofrimento.

    As estações passaram.O verão na secura da esperava. O inverno no gélido da solidão. O outono vida cai junto com as folhas. A primavera novamente a esperança brota nas flores. Mas, nada mudou. Continuava caminhar na escuridão da vida, e o seu coração era preenchido pela solidão.

    Em um tempo indeterminado apareceu repentinamente duas direções, cada uma seguia um destino distinto. O vento acariciou sua face e foi rumo à sua sina, partiu sozinha enfrentando todas as pedras ao meio do caminho…Permanece o resto de sua vida no caminho do seu mesmo destino…

Amar

Carlos Drummond  de Andrade 

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de  amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, 
e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuido pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Tudo é uma invenção 

Ao caminho há pedras no chão 

Atravessar e chegar ao final 

 E percebe que é ponto inicial                                

A vida é essa não há escapatória 

Viver é  pensar  

Pensamentos aprisionados ao cérebro racional 

Ou liberto em imagens e em palavras no papel

Somos apenas seres mortais e delimitados 

Precisamos de uma nova invenção 

Que venha do coração..

Que substuti o cérebro incapacitado 

Não vivendo pelo pensamento

 Mas pelo sentimento

Em todos os momentos que esvai

Um pedaço de sua melodia

Viver entre a realidade 

E a utopia 

Encontra-se o mesmo dia 

O presente….


As óticas da vida

    Através da janela via realidade se desintegrar ao concretismo dos objetos, que guardavam uma composição. As notas que rodeavam eram a mesma melodia, o silêncio que sombreavam as curvas. Lá fora é imenso e podia ver as luzes difusas e  longínquas sob uma massa acinzentada de poluição que encobria toda atmosfera terrestre. E, subitamente percebera aquela degradação que compunha a música sombria da realidade. A vida que tinha duas óticas, os olhos fechados da utopia e abertos da endurecida realidade. O mundo num enorme papel repletos de palavras que se delimita numa criação agnóstica. Nada escapava da invenção,de reproduções de pensamentos avulsos que dominam a racionalidade do ser humano impossibilitado de atingir e descobrir a verdade que envolve os mistérios do mundo. O máximo que chegava era através da linguagem, que está custódia de transformações e múltiplas  respostas, gerando mais dúvida. Talvez o silêncio seja o sigilo, mas que finalidade traria  a verdade já que tudo não ultrapassa de uma mera criação. A única coisa que não foi inventada era escuridão.

    De olhos fechados ao escuro do quarto estava na ausência de pensamentos, somente com o silêncio perpetuo. Naquele lugar não havia tempo. Mas sempre abria os olhos novamente e enfrentava as pedras do caminho caótico. Vivendo o mesmo tempo, o presente. Ultrapassando as pedras que interrompia a constância das horas. Ao atravessar e chegar ao mesmo ponto de origem. Todos estavam enganados, até os olhos. Mas aquela farsa convencia, pois tinha esperança de encontrar a felicidade, mesmo sabendo que duraria apenas um instante. O ideal dos pensamentos  é ser feliz, que anseio mais banal e interrompido pela sabedoria e as pedras que jamais deixará o caminho orbital da vida. Somente no amanhã seria feliz, e quebraria definitivamente as pedras. Pois não há amanhã, somente hoje. Na margem do amanhã é esperança que vive entre a realidade e a utopia. Enquanto os pensamentos vivia em palavras, os olhos ficavam perplexo nas nuvens finitas que encobrir ao infinito do céu. O pensamento de viver que se perdia no tempo. Os números e palavras que traduzem pedaços libertos à imortalidade.


No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra  no meio do caminho

Tinha uma pedra

No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Da vida de minhas retinas tão fatigadas

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra

 Carlos Drummond de Andrade