Passagens das folhas

Em meados de algum tempo

renascia um campo de novas flores

que exalavam por meio de suas cores

a natureza confortante daquelas memórias.

Aquele ano foi repleto de realizações e transformações,

pois uma linda borboleta branca se tornou

um arco-íris compostas de cintilantes de realidade.

Estava cada vez mais perto de seus mais preciosos objetivos

que seria completar mais um ano inovador com novos desafios

e conquistas.

Cada momento humanizado estava eternamente

guardando dentro de si.

Em contrapartida, aqueles que tentaram destruí-la

foi esquecido para sempre.

Agora é tempo de celebrar o novo sol das realizações.

      As reminiscências daquele ano foram desfolhadas com o outono, plenamente, feliz e recolhidas dentro do passado-presente. Enquanto esperava apreensiva para seus novos caminhos. Naquele instantes, todas as suas pedras se transformaram em uma ponte para construir seus novos sonhos-realísticos.

   “Que venha mais um ano leve como vento sábio como a verdade e aquecido pelo amor humano.”

Procura-se

    Os  dias de minha memória estão expirados neste ano revelador, caoticamente, às avessas de melodias comuns e planejadas. Descobrir que a vida humanizada sempre esteve perto de mim e me sustentava em sofrimentos injustos ou sofrimentos saudáveis que permitem a transformação intensa de todas as proposições lúcidas. Dentro de cada parte que simboliza um progresso de meus suspiros, olho para trás e vejo que tudo que tinha que acontecer exatamente como foi, dentre todas as injúrias, derrotas, choros, revoltas e injustiças foram metaforizadas em um vale de realidade, dignamente, crescente. Portanto as injúrias viraram flores de piedades e reflexões; as derrotas abriram para novos caminhos para o destino;  os choros são, na verdade, mares de crescimentos e águas de sentimentos límpidas que deslizam para o vale da felicidade merecedora; as revoltas formaram uma grande armadura de sabedoria e questionamentos sobre os espinhos venenosos e, por fim, as injustiças se tornaram o manto do reconhecimento verdadeiro de cada alma falante.

    Aqueles doze meses de tantas ações desumanas se transformaram em fumaça do esquecimento. Naquele final que faiscava, serenamente, na minha retrospectiva vislumbrava um futuro-presente tão confortante em que os caminhos são nivelados por novos e inebriantes desafios que denunciavam suas cores translúcidas. Parecia que tudo que estava procurando encontrara. Sim, estou certa dessa decisão, encontrei um meio de aprimorar minhas capacidade prematuras em resultados claros.Prefiro ser feliz ao invés de ter feliz, pois o último é perecível, efêmero. “

    Nas suas reais ideologias vivia imersa dentro de suas conquistas, vitórias, novos futuros e obstáculos o qual enfrentaria para chegar até a reta final. Todavia, ainda não se contentou com algo que a perturbava, levemente, como um sopro noturno em que não mostrava sua origem. No fundo sabia o que significava aquilo, no entanto, não tinha muito acesso àquela parte que se comunicava através de outras linguagens diferentes do que estava acostumada. Era uma nova sensação que não tinha origem certa, porém sabia que essa fazia parte do seu processo de humanização. Tudo aquilo era o ato de procurar. Procura-se em forma de matéria ou espírito aquilo que saiba amar não com palavras, promessas ou idealizações uto-mentira, entretanto, saiba amar por meio da ação, dos gestos, verdadeiramente através do coração da realidade. Procura-se o fazer “eu te amo” não o seu dizer promíscuo e sem razão. Procura-se pessoas humanas que saibam ser justas com outras. Procura-se a verdade que se perde em tantas asneiras. Procura-se a vida digna, íntegra, verdadeira. Procura-se a felicidade incondicional que estava na morada de sua sabedoria tênue, mas pronta para expandir das fronteiras limitadoras que adormeciam nas noites de lua cheia.

    Mas tinha certeza que não precisava procurar pela vida humanizada e nem pela felicidade. Pois elas sempre viveriam dentro de sua mente e de seu coração. Naquela tarde, nada mais entristecia, nem mesmo a incerteza de ser enganada novamente, porque sabia que estava guardada pelo sol da verdade e ela não deixaria nenhuma injustiça lhe a abater. Naquele momento a vida estava além de qualquer definições. Fecha aquele ano com novas reflexões com seu grande amigo, Rubem Alves, que apesar de nunca ter conhecido pessoalmente refletia em sua própria vida.

 Instantes, de Rubem Alves.

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido. na verdade, bem poucas pessoas levariam a sério. Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a mais lugares aonde nunca fui, Tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos imaginários. Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida. Claro que tive momentos de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feito a vida, só de momentos; não percas o agora. Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, Um guarda-chuva e um para-quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve. Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, Contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, Se tivesse outra vez uma vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.

Certezas…

 Nas linhas daquele coração havia um sentimento que nunca foi despertado ainda, a não ser o amor da família verdadeira dos pais dos avós e irmã. É melhor não ter sentido isso do que ele, simplesmente, acabar.

 Não tenho pressas para poder amar humanamente, pois tenho certeza que minha alma é pura e está límpida como oceano de utopias-realísticas.

O Amor Acaba, de Paulo Mendes Campos

    O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas 23 femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fosse melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na 24 dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Escárnio da ternura de um sorriso realístico

      Uma resposta estava esclarecida a cada momento que vivia a sua verdade tão límpida e repleta de girassóis que nasciam no outono e morria na primavera. Desde o começo já era nítido compreender a contradição dos fatos, e como fora perdida em tantas promessas em que único caminho era à distância do desamor. Sentia suas forças restaurarem o mais puro de sua existência, pois acabara de consagrar o túmulo de deslembranças. Não quer dizer que apagaria como se fosse flashes significantes, apenas adormeceriam no sono da morte tudo que vivera num passado indiferente com o agora tão cheio de fôlego e realidade.

      Ninguém seria capaz de destruir seus sonhos realísticos e motivadores, ninguém ordenaria e prometeria um futuro encantando com gotas sangrentas de lirismo que nem era inspirado por um poema por mais simplória que seria devido a escassez de linguagem verdadeira e musicalidade do coração. Portanto, o poema dentro daquela atmosfera sabia distingui de uma promessa racionalista para bagatelas de juntaras de palavras sem sentido,  porque nunca se concretizaria.

      Nas ondas noturnas um sorriso era produzido como uma forma de reflexão e exalar um escárnio necessário, talvez, o desprezo seria algo que motivava aquele crescente desejo de se libertar. Mas para quê, pois sabia que estava livremente imersa dentro da realidade marítima que navegava dignamente suas horas. Aquele tempo era feito de agora e esse era melhor tempo possível e humano para aproveitar. Dali, construiria suas ambições que cresciam como flores perfumadas de ternura perfuradas pelo sofrimento. Nada estava perturbando que se revelou foi totalmente preciso. Não queria que tivesse mudado, pois não admitira se engano em um futuro do presente posterior que agora é seu futuro do pretérito, isto é, jamais aconteceria. Mesmo dele advertir outras falácias prometidas, no entanto, a descrença crescia e não tinha como aceitar aquela condição de menosprezo. Por isso, revertia aquele sentimento para desdém de outro e não seria mais reduzida por nenhuma partícula de amores destorcidos. Miragens sem perdem na eternidade de um amor prometido que tinha certeza que naquele coração não seria cumprido, porque as ações não podem se enganar. Que alívio ao pensar nisso. Sentia-se indiferente diante de tudo aquilo… Apenas sorria com escárnio para imagem de um alguém que declarou que a amava como se fosse única e que fez grandes planos enfeitiçados pela penúria o ilogismo utomentira.

      Naquele olhar que transparece uma alma serena desejava que cada um seguisse seu destino com seus corações em busca da verdade. Pois jamais aceitaria que uma alma cinzenta expresse sentimentos conturbados e esperados por qualquer coração encantado e depois revelasse sua verdade ao final do discurso. Jamais diga a alguém que amará eternamente, porque nem a pessoa sabe desse universo de sentimento podendo ser facilmente enganado pelo fogo ilusório. Nunca olhe em outros olhos e diga asneiras incolores.

– Não diga que me ame. Não quero saber de irrealizações. Conheço a realidade com ternura e também com meu escárnio, usarei cada um dele para cada ação que estimular uma sensação determinada. Não fale que sou única e que voltara pensando que fará eu esperar que nem uma imbecil, pois nada disso eu sou. Sei que sou ingênua, mas não nesse ponto ridiculamente nítido. Não invente desculpas inconvenientes. Ninguém que ame de verdade foge como se fosse uma barata preste a ser devorada pela G.H com medo de anular sua própria identidade humana. Nunca faça promessas que sabe no fundo que não cumpriria, porque isso não demonstra caráter e humanidade. Mesmo que pense que estou enganada, sei que não estou. A realidade e mais forte do que suas próprias e contraditórias palavras. Não guardo nada disso. Dentro desse nada existe apenas de seu amor prometido que se despede sem velas acessas e nenhuma flor para fraterniza seu fim… Quando é amor sente-se desde ao primeiro olhar e nada conspirar para destruí-lo. Infelizmente, mais um engano…Quero apenas que siga sua vida feliz, pois  assim que farei com a minha sem rancores, e peço para que minhas palavras não sejam desconsideradas, porque sei que são verdadeiras…

      No fundo daquele mar existia em suas profundezas uma luz reluzente que escondia seu amor que tinha certeza que apareceria na hora certa por alguém que saberia valorizar aquele sentimento…

 

Doce nada

Não nasci apenas para promessas falsas,

para idealizações utópicas sem realizações,

para tropeços fundos sem razões e justificações adequadas,

para abismos injustos…

Chega desse grande inventário de gritos que sussurram em uma alma…

Que silêncio escuro que invade esta noite,

Sem mais nada a dizer..

Apenas afirmo:

Chega do seu doce vazio, doce vazio..

Não mereço esse sentimento,

Não aguento mais falácias que constroem pontes desregulares,

Fui feita para viver a verdade e as ações dignas da vida..

Não esperar um futuro distante e improvável.

Chega de promessas!!!

Utopias, pois isso mais parece uma distopia,

mas com minhas forças determino outro presente para meu agora.

Esse momento estou livre de qualquer ilusão,

pois o que restou apenas foi seu doce nada..

Já que foi decidido, destruirei o que tínhamos em comum.

Sou capaz de me erguer em cada gotícula e ser muito mais feliz

do que pensava que seria com a sua alma.

Meu coração se consolou por ser verdadeiramente só, ou invés, de se

perder em um monte de bagatelas inúteis de palavras,

pois os fatos valem mais do que palácios de palavras,

porque esse reino é da realidade e não existem:

príncipes, princesas, magias e feiticeiras…

Existe somente a endurecida realidade o qual temos que aprender a navegar

para não despencar com sua força marítima.

Eu sei muito bem navegar, nunca me afogarei dessa forma,

pois cada um possui o destino que merece e escolhe.

E você escolheu o seu. Eu também escolhi o meu.

E ele é sem promessas ilusórias.

Chega de doce nada, meu bem.

O que realmente quero é amor de verdade

e não perderei a esperança de encontrar.

Adeus para o amor, de Rubem Alves

      Ciúme é a dor no coração ao ver a pessoa amada dando  adeus, na fantasia. A cena do pássaro voando é dilacerante. Porque , no ciúme, ele voa para outro…

      Ciúme não é falta de confiança na pessoa amada. Confio que a pessoa amada nunca me trairá com seu corpo: conheço o seu caráter. Mas não posso confiar nos seus sentimentos. Não somos donos dos sentimentos: eles se encontram além da nossa vontade.

      Neste momento, entendera os motivos da vida. Fechou seus olhos. Sentia livre, leve e flutuante. Ninguém mais despedaçaria seu coração. Chega de ilusões e promessas inúteis e vagas!

Adeus!

Só restou as cinzas do silêncio…

Os mares sem amares: O novo caminho da felicidade

    No fundo do mar viviam todos os sonhos ainda não realizados e deveriam ficar lá até estarem prontos,no entanto, aqueles mais ousados que pretendiam ser alcançados logo não tinham força suficiente para aguentar o impacto das ondas selvagens, portanto acabavam sendo devorados impetuosamente. Por isso, era necessário espera o momento exato para que aqueles sonhos transformar-se em realidade-plena.

    Tinha confiança que dentro daquele coração atrás da dor e fratura realista existia uma grande margem de restruturação e sentia que seus pés caminhavam na areia tênue que se enroscava, levemente, em seus pés. Depois daqueles destroços em que uma parte de seu sentimento foi comido e outra roubada desenvolveu várias flores de lírios amarelos. Aquela iluminação floral redefinia seus novos conceitos reflexivos da vida.

    A persistência daqueles olhos em observar um horizonte límpido, real e puro era tanto que não media nenhuma condição para não realizar. Mesmo que seus sonhos impulsivos sejam destruídos pelo própria mar em que concretiza seu destino preventivo de fazê-la feliz livremente. Sem ninguém, sem sentimentos irreais, sem palavras doces, entretanto, somente com reais dignas e realisticamente certas e precisas decisões. Uma grande pena esses mares sem amares…

    Todavia, diante de todas as circunstâncias por mais ruins que sejam, agora soam como uma poesia amarga em que todo tipo de sofrimento é um caminho para a felicidade tão almejada por aquela alma. Como uma libertação ela exclamou:

–  Amor(nada, algo, desconhecido, incerto ou utópico), quando vim que seja de verdade. E se for verdadeiro que fique. Pois não tem sentido fugir de suas pulsações….Agora, sei que somos enganados pela ilusório dito como “verdade”. Eu já sai da caverna faz tanto tempo que essa realidade destrutiva nem dói, mas no fundo fica uma mágoa quase incurável de descrenças de sentimentos e bondades de outras almas declamantes.

    Dentro daqueles olhos refletiam linhas literárias de uma crônica muito peculiar e poética, Ostra Feliz não faz Pérola, de Rubem Alves. 

Ostra Feliz não faz pérola, de Rubem Alves

    Ostra são moluscos, animais sem esqueletos, macias, que representam as delícias gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas- são animais mansos-, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e dizia: “Ela não sai da sua depressão…”. Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho- por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou,levou-as para casa e a sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente, seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas uma ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa.

    Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A reposta que encontrou foi a mesma a ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não se elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethovem- como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa..

 

 

    Quais linhas seriam traçadas a partir daquele momento?

Destroços e ressonâncias dilaceradas

     A fratura daqueles cortes de palavras que foram ditas sangraram durante alguns dias, mas foi necessário para que cicatriz seja eficaz. Aquele sangue grosso e escarlate transmitia a verdade por trás de tudo aquilo. Naquela mesma alma ninguém poderá feri-la de nenhuma maneira, mesmo que seja sensivelmente pensada e talvez precisa. Todavia, nunca deixaria que os sentimentos traduzem e escureça de pensamento incerto.

      As motivações ainda estavam petrificadas como caminhos destraçados para outro amanhã tão profundamente sem distinção com presente. Aquele agora era tão vívido, sentia a sua superação poética que transformava as moléculas de todas as expressões que atingiam seu corpo-alma. Estava farta de tantos desencantos e normas desregulares que conduziam aos pesares e sentires de cada suspiro. A importância dessa reflexão estava perdida ao atormento de que tudo não poderia ser verdade. Até a nossa própria existência.

     Às vezes, ela divagava em filosofia, e um sorriso humano invadiu a face da alma e disse dentro de si:

– Entre enormes muralhas o que sempre sobreviveu foi a motivação de viver dignamente. Nada era maior do que os outros grandes sentimentos que todos idealizam. Imbecis pensam que sejam verdade. Infelizmente, àqueles que pensou ter amado alguém e ser correspondido, apenas a única resposta permanece que são ditas pelo silêncio e distância decidida que petrificam todos desejos futuros… Nada mais tenho que esperar. Prefiro acreditar no tempo e na verdade. Estou realmente cansada de ser despedaçada por corações impensantes. Cansei! Mas nada quebrará minhas motivações humanas de ser feliz. Pois só depende de mim. Eu sou minha própria vida-plena.

     Os horizontes expandiam outras nuances de verdade e estava decidida em seguir seu caminho sozinha, pois era mais superável e menos sofrível.

– Vida, eu só acredito a partir de agora em verdades por meio de ações. Cansei, cansei, cansei!!!! De palavreações que são palavras que tentam ser ação, mas se perdem em um monte de paradoxos….

     A vida apenas ergueu seus olhos e mostrou uma perspectiva mais saudável e disse baixinho: “Seja livre e feliz como a poesia fora do papel que lhe a aprisiona, como o céu fora do universo, como os sentimentos fora do coração, como pensamentos fora da cabeça e como corpo fora da alma.” 

     Dentro de si sabia que estava vivendo aquela transcendência, pois toda ocorrência tem suas justificações sejam elas válidas ou não. Entretanto, o melhor de tudo isso são os objetivos. Porque todos nós merecemos a felicidade no valor mais expressivo e real do seu sentido. Suspira, suavemente, e se liberta em formas de palavras:

– O amor comeu o amor e cuspiu indefinição… Mesmo assim ainda sou feliz… Sou minha força!

     Naquela noite o que restou foi somente um silêncio cortante. Ela guardou aquele texto que significava tanto e leu novamente, Os Três Mal-Amados, de João Cabral de Melo Neto. 

Os Três Mal-Amados

João Cabral de Melo Neto


Joaquim:

      O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

      O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

      O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

      O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

      Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

      O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

      O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

      O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

      O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

      O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

      O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

      Finalmente, conclui: “Ainda bem que nada disso me ocorreu. O amor comeu ele próprio.” O que restará só depende das ações da verdade. E voou levemente para infinito…

AMOR- AMOR- NADA- AMOR…

Sem definições, rótulos e lógos…

      Em algum momento de sua vida despertou um pensamento indivisível, nunca compreenderia a sua exatidão e não era necessário entender aquilo e que estivesse relacionado com qualquer coisa que estivesse localizada nos logos: tanto lógico ou ilógico. Estava na impressão do sentir, mas o que era realmente aquilo? E, que teria honra de sentir toda esta grandiosidade? Não importa, ela sabia que todos nós somos capazes de atingir aquele “sentir”. A dignidade, fraternidade e  a liberdade de toda eternidade das nossas vidas, tudo fazia parte daquele “sentir”.

     Ao piscar seus olhos direcionou à uma nova concepção e desconsiderou todas e quaisquer definições existentes até aquele instante: “O que é a realmente vida, amor, felicidade e eu mesma?” –  Ela refletiu como se fosse uma epifania, mas estava fatigada de meras definições achava que retirava o pulsar verdadeiro de todas  as coisas. “Por que o ser humano é obcecado em definições que até esquecer de viver intensamente as essências das pequenas coisas?”.

    A partir das fagulhas do tempo despertou silenciosa num canto e percebeu que não era mais ela, era eu própria. Não eu escritor, nem eu leitor, era o eu mais puro que alguém poderia viver. Que, ás vezes, aparecia e simultaneamente dissipava como uma nota melódica que devora toda a alma num instante eterno….

     Quais seriam o verdadeiro sentido daquelas palavras ? Numa folha amassada estava escrito numa letra bem delineada:

“Qualquer grandiosidade é indefinido, pois qualquer definição particulariza as coisas e até ‘anti-coisas’. O ‘tudo’ está suscetível a transformação e melhor do que simplórias ou complexas definições que não tem nenhum significado. O que vale realmente é o ser do amor que é mais do que podemos sentir, definir, discernir, conceber e ganhar. Então, viva todos os verdadeiros amores que nascem de simples olhares ingênuos e perniciosos até ao infinito como nossos próprios enigmas.

 Será que alguém é digno desta palavras mal-ditas ou malditas? Não preciso de resposta, pois este sentimento guardo em algum lugar dentro de mim” 

Tudo agora fazia parte dela e dos seus ‘eus’.

Os relapsos: Ao lado da vida

      Estava imersa nas excessividades, tudo transbordava e ultrapassava o limite de realidade. Num som eufórico proclamavam a reinação dos sonhos, haviam vencidos. Mas a questão não era de vitória ou derrota, perdas e ganhos, não estava exposta nesse dualidade antagônica. Era simplesmente algo de ser, como personaliza-se e nutria uma autônoma vida. Algo insólito deixava essa sensação, pois sempre é sinistro, aquilo que não consegue descrever, discernir, e organizar num entendimento. Mas como agradava-lhe o não-entendimento, e sua sintonia tão pactuante com aquele ser  que venerava o âmago puro da loucura. Desse objeto construía  aquilo que considerava de vida,  isso era sua fonte inesgotável, pois mesmo no vazio fúnebre, criava horizontes cálidos de uma noite mal-expressada.

      Caminhara chegara ao fim de uma fase, pequenos feixes obscuros estavam tapados, a enterrados no cemitério do esquecimento, haviam várias lápides que ficaram jazidas em seus cantos dentro da memória do esquecimento. Nada mais daquilo assombrava, a experiência é passo final para superação. Com toda certeza ainda havia as grandes correntes humanas que eram: o medo que sempre existirá, pois nasce no desconhecido e morre na experiência, e renasce para alimentar outros sentimentos que precisam dele para sobreviver. A indolência, sim grande louvada preguiça, o estilo Macunaíma de viver, não percorre apenas nos sangues dos brasileiros, mas de todos nós humanos. Esse estado inerte meditativo, um ócio que pode conter pequenas epifanias e dá origem ao uma nova invenção, ou talvez apenas acalentar a vida que movimenta-se rapidamente e cruza com muitos fatos metódicos. Além do medo e da preguiça há outros itens, porém esses prevalecem e estão composto na natureza humana.

      Era complexo definir uma forma de  memorizar em mim,  a palavra, esse pedaço de vida que delineou em 365 dias. Nesse tempo que ainda continua mais misterioso e equivocada sua definição, cada instante é uma consistência distinta ou apenas uma réplica do ontem. Nesse ritmo navegava e retirava do ar, além do oxigênio, retirava a vida que purificava e alimentava a cada retalho. Nunca deixará de caminhar, sempre a percorrer, transformar-se, ou apenas perde-se ao infinito, mesmo sabendo que a vida carnal seja mortal, tem algo que aproxima-se da imortalidade é a ideia, não uma   simplória composta por pensamentos, teorias, ideologias e cias. A ideia expressar algo mais além disso, é fato vívido de um alguém, além de uma breve memória, são as  vozes silenciadas por mim, a palavra, e segmentos como: palavra-sentida, não-palavra, palavra de não-pensamento, e assim percorre, cada uma com suas específicas definições mutantes.

      Dentro daquelas notáveis horas, reviviam fugazmente momentos memoráveis, talvez seja esquecido pela mente, mas nunca pelo coração. Nada de nostalgia, estava feliz com presente. Sabia a grande diferença da expectativa para realidade, mas esse abismo não assustará mais, pois conseguiu conciliará e fundir num único objeto. Talvez um dia poderia acha que estava enganada, mas até lá, teria muitos horizontes para descobrir. Como uma luz noturna, onde olhos refletiam a paixão de viver. Desconhecia onde encontrou aquilo, não importava, talvez mudará, mas gostava de sentir-se assim. Nesse estado momentâneo trazia um relâmpago de eternidade.

Tudo que chamo de vida

     A sobrevivência era uma consistência intensa que liderava todos os sentimentos, era motivação fortificadora de viver. Naquele dia, despertou na inebriação de mais um ano, sabia que haveria muitas surpresas por aí. Aquele final de ano vivia ao lado de várias promessas, que estava preste a realizar-se. Lembrava nitidamente do ano passado, e conciliava com aquele pleno e digno presente que metamorfoseava a cada instante, impressionando cada vez mais. Tudo tinha uma primeira vez, mas o diferente do primeiro é que inesquecível, marcante e imortal. Jamais esqueceria momentos que foram sagrados para coração, ternos para mente e contemplativos para aqueles olhos e aquela vida que enfrentara a realidade e vencera.

     Aquilo era apenas o começo de uma longa e incerta história. Cada dia escrevia um capítulo novo e inusitado das pulsações da vida. Todo dia nascia um novo sentimento que desfolhava lentamente a áurea e mistérios daquela vida.

     Num dia muito longínquo do presente havia um poema que concederia para alguém. Tinha essa fascinação em sua mente, até que nesse final de ano surgiu subitamente atrás da ondas oníricas, numa realidade avassaladora e surreal. Naquelas breves palavras dizia tudo que perpassava naquele coração. Isso é um retalho daquilo que chama de vida.

O nosso livro(Florbela Espanca)

Livro do meu amor, do teu amor, 

Livro do nosso amor, do nosso peito…

Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,

Como se fossem pétalas  de flor.

Olha que eu outro já não sei compor

Mais santamente triste, mais prefeito.

Não esfolhes os lírios com que é feito

Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu !

Num sorriso tu dizes e digo eu:

Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente

Dirá, fechando o livro docemente:

“Versos só nossos, só de nós os dois…”

365 páginas

         Aquele ano guardou uma densidade bruta e diferente, muitas provas de sentimentos e de vida foram jogadas aleatoriamente, como se fosse cartas dispersadas ao vento. Em cada mês o regresso daquele tristeza de motivo desconhecido apunhalava o coração, as lágrimas de angústias lavavam a alma e empobrecia o corpo desnudado pela brusca realidade, em que depara o seu destino. Os caminhos são múltiplos a incerteza e receio permeiam aquela mente, deixando suas respectivas névoas. Cada dia era como se tivesse ganhando um pedaço a mais da vida, uma vitória inconcebível  por ela mesma. Aproveita uma breve felicidade de alívio e uma serenidade peculiar, pois aguardava o regresso da tristeza. Aquele sentimento era a essência da alma, nunca deixaria de sentir…

      Naquelas redondezas guardava inusitadas surpresas, mas até lá continuava a navegar naquele mar imerso em lamentações, pois cada instante despertava mais, e via com os próprios olhos a  face da realidade. Nunca notara como era  bruta, desconfigurada e sofrível. Sofrera de solidão, de desamparo, de atitudes egoístas e mesquinhas, de quase tudo. Mas nesse final de ano as coisas mudaram completamente de rumo, como imensa aleluia o caminho iluminou-se. O sorriso fora revelado e coração libertado para cantar todos os dias sua doce melodia, que transparece todos aqueles sentimentos que antes eram oprimidos e ocultados. Finalmente sobrevivera, chegará ao final com esperança para outro ano e euforia radiante, esse sentimentos foram a base para compor essas últimas páginas que lustra esse a

   O epílogo eram escritos por palavra-sentidas nascentes de puros e desconhecidos, sentimentos que listram longas linhas de um futuro incerto. Uma esperança crescente e imanente preenchia todos os cantos vazio daquele coração, daquela mente e daquela vida. O futuro eram reticências o presente é pleno, o passado era absolvido e vivia nas longevidades. Estava vivendo intensamente isso era que realmente importava. Aquele não era o fim, apenas um longo e misterioso começo.